Investigação | Acidentes

5W2H + Espinha de Peixe: O Método que Fecha o Relatório na Fiscalização

Jucely DamásioEngenheira de Segurança do Trabalho·11 min de leitura
Diagrama de espinha de peixe de Ishikawa desenhado em quadro branco durante análise de causa raiz de acidente de trabalho.

"Falta de atenção do colaborador." Se essa frase aparece como causa raiz no seu relatório de investigação de acidente, o relatório está errado — e a reincidência é questão de tempo. Investigação séria vai além do comportamento individual e busca as causas organizacionais, sistêmicas e de gestão que tornaram o acidente possível.

Duas ferramentas simples e complementares fazem esse trabalho de forma documentada: o diagrama de Ishikawa (espinha de peixe) para mapear e organizar as causas, e o 5W2H para transformar cada causa raiz em ação concreta com responsável e prazo. Juntos, produzem o relatório que a fiscalização e o Ministério Público do Trabalho reconhecem como investigação técnica séria.

Veja os dados que mostram por que investigação superficial é tão cara:

Custo da investigação inadequada de acidentes — impacto nas empresas brasileiras
Consequência da investigação ruimImpacto estimadoEvitável com investigação correta
Reincidência do mesmo tipo de acidenteAlta probabilidade (causa raiz não eliminada)Sim — causa raiz identificada e tratada
Responsabilidade civil (indenização)R$ 50 mil a R$ 500 mil+ por acidente graveReduz risco — demonstra gestão proativa
Processo criminal de gestoresPena de 1 a 3 anos (lesão grave) ou 2–6 anos (morte)Pode mitigar — demonstra ausência de dolo
Autuação por descumprimento NRMultas + embargo da atividadePrevine — relatório documenta ação corretiva
Aumento do FAP (INSS)Acréscimo de até 100% sobre RAT da empresaParcialmente — menos acidentes = menor FAP

Por que "falta de atenção" nunca é causa raiz

Uma causa é raiz quando, eliminada, o acidente não se repete pelo mesmo caminho. "Operador não prestou atenção" não passa no teste — por que não prestou? Estava com sono por jornada longa? Nunca foi treinado para esse risco específico? A tarefa era rotineira demais e gerou automação do comportamento? A cadeia sempre termina em uma falha de sistema de gestão: procedimento, supervisão, dimensionamento, manutenção ou cultura organizacional.

Espinha de Peixe (Ishikawa): organizando as causas por categoria

O diagrama de Ishikawa organiza as causas potenciais em categorias — o clássico 6M: Método, Máquina, Mão de obra, Material, Meio ambiente e Medida. Para cada categoria, a equipe pergunta "por que isso contribuiu para o acidente?" e vai descendo até a causa raiz com a técnica dos 5 Porquês (perguntar "por quê" cinco vezes sobre cada causa encontrada).

  • Método: o procedimento existia? Estava atualizado? Era executável no tempo dado pela produção?
  • Máquina: a proteção funcionava? Manutenção preventiva em dia? Havia improvisos conhecidos?
  • Mão de obra: treinamento válido e específico? Dimensionamento suficiente? Fadiga acumulada?
  • Material: o material era adequado? Havia especificações incorretas ou substituições não autorizadas?
  • Meio ambiente: iluminação, temperatura, ruído, layout, pressão de produção?
  • Medida: os indicadores capturavam esse tipo de risco? Havia inspeções periódicas?

5W2H: da causa ao plano de ação fechado

Para cada causa raiz identificada, o 5W2H estrutura a resposta: What (o que será feito), Why (por que — vínculo direto com a causa raiz), Where (onde — setor, equipamento), When (prazo exato), Who (responsável nominal — não o setor, a pessoa), How (como será implementado) e How much (custo estimado). Plano de ação sem responsável nominal e prazo é carta de intenção — não fecha conformidade.

Verificação de eficácia: o passo que quase ninguém faz

O ciclo só fecha com verificação de eficácia: 30, 60 ou 90 dias após a implementação de cada ação, alguém responsável verifica se a medida realmente eliminou ou reduziu a causa raiz. Evidência de verificação (inspeção, medição, observação documentada) completa o relatório. Ação implementada sem verificar se funcionou é o meio do caminho que leva à reincidência.

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Relatório bom não é o que encontra um culpado — é o que encontra um sistema falho e o conserta. Para saber como a NR 12 exige apreciação de riscos em máquinas (prevenção de acidentes), leia também APR e HRN NR-12.

Perguntas Frequentes — Investigação de Acidentes e 5W2H

Toda empresa é obrigada a investigar acidentes de trabalho?

A NR 1 e a NR 5 estabelecem a investigação de acidentes e incidentes como parte do gerenciamento de SST. Além disso, o envio da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) é obrigatório, e a fiscalização pode exigir o relatório de investigação.

O que é Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e quem deve emitir?

A CAT é o documento que comunica o acidente de trabalho à Previdência Social. Deve ser emitida pelo empregador em até 1 dia útil após o acidente ou diagnóstico de doença ocupacional. Pode também ser emitida pelo sindicato, médico ou pelo próprio trabalhador, se o empregador omitir.

Qual é o prazo para concluir a investigação de um acidente?

A legislação não define prazo específico, mas a prática recomendada é: investigação preliminar em até 24h (preservar evidências), relatório inicial em até 72h, e plano de ação com verificação em até 30 dias. Para acidentes fatais, o prazo é comprimido pois o MPT pode intervir imediatamente.

O que é a técnica dos 5 Porquês?

Consiste em perguntar "por quê?" repetidamente (geralmente 5 vezes) sobre cada causa identificada, aprofundando até alcançar a causa sistêmica ou organizacional. Exemplo: por que o operador não usou o EPI? → Porque não estava disponível → Por quê? → Porque o estoque acabou → Por quê? → Porque não há procedimento de reposição...

Quem deve participar da investigação de acidente?

Equipe multidisciplinar: o acidentado (quando possível), colegas que testemunharam, supervisor imediato, representante do SESMT, membro da CIPA e especialista técnico da área. Investigação unilateral (só o SESMT, sem ouvir operadores) tende a ser superficial.

A investigação do acidente pode prejudicar o trabalhador?

A investigação técnica visa causas sistêmicas, não culpados individuais. O resultado não deve ser usado para punição disciplinar do acidentado — isso inibe relatos futuros e prejudica a cultura de segurança. Separe investigação técnica de processo disciplinar, se for o caso.

O que é um quase-acidente e por que investigar?

Quase-acidente (near miss) é um evento que poderia ter causado lesão ou dano, mas não causou por circunstância. A investigação de quase-acidentes é ouro: o sistema falhou, a oportunidade de aprendizado está viva, e corrigir custa muito menos do que após o acidente real.

Existe diferença entre investigação de acidente e perícia judicial?

Sim. A investigação interna visa identificar causas e prevenir reincidência. A perícia judicial é realizada por perito nomeado pelo juízo para apurar responsabilidades em processo trabalhista ou criminal. O relatório de investigação interna pode ser usado como evidência na perícia — para bem ou para mal.

Como preservar a cena do acidente para investigação?

Não mover, não limpar e não remover nada da cena (exceto o necessário para socorrer o acidentado) até que a investigação documente tudo. Fotografar com câmera (não apenas celular) de múltiplos ângulos, medir distâncias, coletar equipamentos envolvidos. Em caso de acidente fatal, a cena deve ser preservada para o MPT.

O relatório de investigação de acidente é documento público?

Não. É documento interno da empresa, mas pode ser requisitado pelo MTE em fiscalização, pelo MPT em investigação criminal ou pelo judiciário em ação trabalhista. Manter sigiloso não significa destruí-lo — a empresa tem interesse em apresentá-lo como evidência de gestão.

Como tratar acidente de trabalho em empresa terceirizada?

A contratante é corresponsável pela investigação e deve participar ativamente. O relatório deve identificar falhas nos dois sistemas (contratante e contratado) e o plano de ação deve abranger as duas empresas. Omissão da contratante aumenta sua responsabilidade civil.

O que é a árvore de causas (method tree analysis) e quando usar?

É uma metodologia mais estruturada que o Ishikawa, mapeando a sequência causal do acidente em forma de diagrama lógico. Indicada para acidentes complexos, fatais ou de múltiplas causas encadeadas. Complementa bem a espinha de peixe.

Como a investigação de acidentes se conecta ao PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos)?

Os resultados das investigações alimentam o inventário de riscos do PGR: riscos que se materializaram em acidentes devem ser reavaliados em severidade e probabilidade, e o plano de ação do PGR atualizado. Investigação sem conexão ao PGR é aprendizado que não entra no sistema de gestão.

O que acontece se o acidente for fatal e a empresa não investigar adequadamente?

O MPT pode instaurar Inquérito Civil Público, intimar gestores, solicitar documentação e propor Ação Civil Pública. Gestores responsáveis podem responder criminalmente. Empresas sem relatório de investigação ficam em posição muito mais vulnerável.

Como medir a eficácia do plano de ação pós-acidente?

Indicadores quantitativos: taxa de reincidência do mesmo tipo de acidente nos 12 meses seguintes, número de desvios do tipo identificado encontrados nas próximas inspeções, resultado de auditoria específica da barreira implantada. Eficácia não é "implementamos" — é "o risco foi reduzido".

O formulário de investigação precisa ser assinado pelo acidentado?

É uma boa prática incluir a assinatura do acidentado (e de testemunhas) confirmando que suas declarações foram registradas corretamente. Não é obrigatório legalmente, mas fortalece o documento e demonstra processo transparente.

Acidente sem afastamento (típico sem CAT) também deve ser investigado?

Sim. Acidentes sem afastamento podem revelar as mesmas causas sistêmicas que um futuro acidente grave. Empresas com cultura madura investigam todos os acidentes e incidentes, independentemente da gravidade da lesão.

Qual é a diferença entre causa imediata, causa básica e causa raiz?

Causa imediata é o ato inseguro ou condição insegura direta que precedeu o acidente. Causa básica é o fator organizacional ou pessoal que permitiu a causa imediata existir. Causa raiz é o fator sistêmico fundamental — geralmente uma falha de gestão de SST. A investigação deve chegar à causa raiz.

O Ishikawa funciona bem para todos os tipos de acidente?

Funciona bem para a maioria dos acidentes industriais. Para acidentes muito complexos, multifatoriais ou fatais, métodos mais estruturados como árvore de causas ou MORT (Management Oversight Risk Tree) podem ser mais adequados. O Ishikawa é o ponto de partida recomendado para equipes que estão desenvolvendo a cultura de investigação.

Onde encontro o formulário de investigação com 5W2H e Ishikawa integrados?

O Kit Master de Segurança Industrial inclui o formulário completo em Excel com Ishikawa, 5 Porquês e 5W2H integrados, validado em fiscalizações reais. Disponível em [/kit-master](/kit-master).

Continue a pesquisa: Risco Psicossocial Agora é Obrigatório na OSS — O que Muda em 2025, Espaço Confinado do Zero: O Guia Básico da NR 33 para Quem Está Começando e APR e HRN NR-12: Quando a Análise de Risco Salva Dedos — e a Empresa. Para conferir o equipamento correto, use o buscador de CA; para aprofundar a preparação profissional, veja também as apostilas de SST.

Jucely Damásio

Jucely Damásio

Engenheira de Segurança do Trabalho e de Prevenção e Combate a Incêndio · Coordenadora de SSMA · 20+ anos de indústria