Chamada de Margem: ETH +16% — Fechei Minha Opção e Assumi Prejuízo de 911%
Uma alta de 16% no ETH transformou uma short call em prejuízo de US$ 603 e revelou o primeiro padrão de risco da minha trajetória com opções.
Por Jucely Damásio em
Publiquei este relato pela primeira vez em 13 de julho de 2025. Hoje ele funciona como o primeiro capítulo da auditoria dos meus losses: o momento em que uma única call eliminou todos os ganhos anteriores.
Minha primeira experiência real e dolorida com chamada de margem
Eu estava operando uma PMMC, a Poor Man’s Covered Call. Acreditava que a call longa funcionava como lastro para as calls curtas e que a distância escolhida me oferecia proteção suficiente.
Na noite de 11 de julho de 2025, o ETH subiu aproximadamente 16% em menos de 24 horas. Eu estava vendida na call ETH-18JUL25-2750-C. O strike que parecia distante deixou de ser confortável rapidamente, a exigência de margem aumentou e precisei escolher entre manter a posição sob pressão ou encerrar.
Os números registrados na época
- Long Call ETH-26DEC25-2400-C: +US$ 104;
- Long Call ETH-26SEP25-2200-C: +US$ 36;
- outras short calls de junho e julho: +US$ 208;
- Short Call ETH-18JUL25-2750-C: −US$ 603;
- resultado acumulado: −US$ 255.
A perda de US$ 603 representou aproximadamente −911% quando comparada ao prêmio daquela short call. Uma única posição eliminou e superou os ganhos anteriores.
Por que a cobertura não me protegeu como eu imaginava
A PMMC usa uma call longa como substituta parcial do ativo. Isso não torna automaticamente a call curta segura. Vencimentos, strikes, deltas, volatilidade e exigências de margem podem reagir de formas diferentes.
Na prática, eu tinha uma cobertura teórica, mas não uma barreira que impedisse o custo da short call de crescer. A alta rápida do ETH mostrou que “coberta” e “controlada” não são sinônimos.
As três lições que registrei
- Nunca subestimar a volatilidade. A distância de aproximadamente 10% parecia segura e não foi.
- Gerenciar delta e margem. O nome da estratégia não substitui o acompanhamento da exposição.
- Aceitar o prejuízo para preservar capital. Eu encerrei manualmente antes de uma deterioração ainda maior da margem.
Como a PMMC funcionava na minha cabeça
Uma opção dá ao comprador um direito e cria para o vendedor uma obrigação. Numa call, esse direito está ligado à compra do ativo por um preço definido. Eu não estava apenas “recebendo um prêmio”: estava aceitando responder caso o ETH ultrapassasse o strike da call vendida.
Na PMMC, em vez de manter todo o ETH, eu comprava uma call de prazo mais longo e vendia uma call curta. A call longa deveria acompanhar parte da valorização do ativo; a call curta gerava o prêmio. A diferença de vencimento e de strike fazia a estrutura parecer eficiente, porque exigia menos capital do que comprar o ativo integralmente.
O erro foi transformar essa eficiência de capital em sensação de segurança. A call longa e a call curta não reagiam de forma idêntica. Elas tinham deltas diferentes, sensibilidades diferentes à volatilidade e prazos diferentes. Quando o ETH acelerou, o valor da obrigação curta cresceu mais rápido do que a proteção que eu enxergava na tela.
A sequência completa de junho e julho
Antes do loss, as operações menores reforçavam a estratégia. Eu recebia prêmios, encerrava algumas posições e via as calls longas valorizarem. A soma positiva de US$ 348 criava uma história convincente: a estrutura estava funcionando, a volatilidade estava sendo convertida em renda e os ajustes pareciam administráveis.
Esse histórico recente influenciou minha leitura da call de strike US$ 2.750. A distância até o preço do ETH parecia funcionar como uma margem de segurança. Eu estava olhando para o que normalmente acontecia, não para o que poderia acontecer num movimento abrupto.
Quando o ETH subiu 16% em menos de 24 horas, a call deixou de ser uma posição distante. O preço da opção passou a incorporar valor intrínseco, tempo restante, volatilidade e a probabilidade crescente de terminar dentro do dinheiro. A corretora também precisava garantir que a conta tivesse margem suficiente para suportar a obrigação.
Foi nesse ponto que o prêmio inicial perdeu importância. A pergunta já não era quanto eu havia recebido, mas quanto custaria sair e quanto capital continuaria exposto se eu esperasse.
Por que “dez por cento acima” não era uma regra de segurança
Eu usava a distância percentual entre preço e strike como se ela resumisse o risco. Não resumia. Dez por cento pode representar cenários completamente diferentes dependendo do prazo até o vencimento, da volatilidade implícita e da velocidade do mercado.
Uma call 10% fora do dinheiro com meses até o vencimento não se comporta como uma call 10% fora do dinheiro a poucos dias de expirar. Da mesma forma, um ativo com volatilidade elevada pode percorrer essa distância rapidamente. O número isolado não dizia qual era a probabilidade estimada de a call entrar no dinheiro nem mostrava como a posição reagiria a cada novo movimento.
O delta teria ajudado a acompanhar essa mudança. Ele não é uma previsão garantida, mas mostra a sensibilidade aproximada do preço da opção ao ativo. O gamma mostra como o próprio delta pode acelerar. Em movimentos fortes, a exposição não permanece parada no número observado no momento da abertura.
A volatilidade implícita também importava. Quando o mercado passa a esperar movimentos maiores, o preço das opções pode subir mesmo antes de o ativo alcançar o strike. Para quem está vendido, isso torna a recompra mais cara justamente quando a posição já exige atenção.
Margem disponível não era risco disponível
Outro erro foi interpretar a margem permitida pela plataforma como se fosse um limite pessoal de risco. A corretora calcula quanto colateral exige para manter a posição. Esse cálculo protege prioritariamente o funcionamento da plataforma, não o meu plano financeiro.
Uma posição pode ser aceita pela margem e continuar grande demais para a minha banca. Também pode consumir rapidamente a folga disponível quando o ativo se move ou quando a volatilidade aumenta. Esperar pelo aviso da corretora significa permitir que o mecanismo externo decida quando meu risco ficou excessivo.
Como profissional de gestão de riscos, hoje reconheço a diferença entre limite operacional e limite de tolerância. O primeiro diz até onde o sistema deixa ir. O segundo deveria dizer onde eu paro antes que uma falha ameace o objetivo principal.
A decisão de fechar
Eu poderia manter a posição, tentar rolar ou aportar mais margem. Nenhuma dessas alternativas eliminava o fato de que a exposição havia ultrapassado o que eu esperava suportar. Colocar mais capital poderia preservar a operação, mas também aumentaria o valor submetido ao mesmo evento.
Fechar por US$ 603 foi doloroso porque transformou em perda realizada algo que, minutos antes, eu ainda podia imaginar que se recuperaria. Mas a decisão encerrou a obrigação e impediu que a corretora ou o mercado escolhessem por mim.
Isso não significa que qualquer posição pressionada deva ser encerrada. Significa que eu não tinha definido previamente uma regra. Tomei a decisão durante o evento, sob impacto emocional e com a margem se deteriorando. Uma estratégia completa deveria ter descrito antes da entrada o que eu faria se o preço alcançasse o strike, se o delta ultrapassasse determinado patamar ou se a recompra consumisse mais do que o prêmio recebido.
O que o ROI negativo de 911% realmente dizia
O percentual chamava atenção, mas podia confundir. Eu não perdi nove vezes todo o capital da conta. O −911% comparava o prejuízo da short call ao prêmio pequeno recebido nela. Ele mostrava a assimetria entre receber pouco para abrir uma obrigação e pagar muito para encerrá-la.
Essa assimetria se tornaria central na minha história. O prêmio tem limite: é o valor recebido. O custo de recomprar uma call vendida pode crescer várias vezes. Uma alta rara, mas intensa, pode superar dezenas de operações que terminaram com prêmios positivos.
Por isso, contar apenas a porcentagem de operações vencedoras não descreve a qualidade da estratégia. É possível acertar frequentemente e ainda terminar no prejuízo se as perdas forem muito maiores que os ganhos.
As barreiras que faltavam
Eu precisava de mais do que uma escolha de strike. Precisava de uma estrutura de controle:
- limite de exposição somando todas as calls abertas;
- reserva de margem que não pudesse ser usada para novas posições;
- condição objetiva de recompra ou rolagem;
- registro do delta na abertura e durante o acompanhamento;
- calendário de eventos capazes de elevar volatilidade;
- proibição de aumentar a posição apenas para recuperar uma perda;
- resultado consolidado depois de taxas e encerramentos.
A principal barreira seria simples: nenhuma nova call enquanto eu não conseguisse responder quanto perderia se todas as posições fossem pressionadas juntas. Eu sabia explicar cada contrato; não sabia explicar o risco do conjunto.
O que enxergo quando releio em 2026
Na época, concluí que precisava ajustar mais rápido. Depois do extrato de 2026, enxergo algo mais profundo: eu contabilizava os prêmios individualmente, mas o risco precisava ser medido pelo conjunto das obrigações.
Este foi o primeiro aviso documentado de um comportamento que reapareceria nas calls de Bitcoin: muitos ganhos pequenos podiam ser apagados por uma única recompra grande.
Relato pessoal e conteúdo educativo. Não constitui recomendação de investimento.