Refinaria, planta química, pintura industrial, silo de grãos, cabine de GLP — em todos esses lugares existe um inimigo invisível: a atmosfera explosiva. Basta a mistura certa de combustível (gás, vapor ou poeira) com o oxigênio do ar e uma fonte de ignição — uma faísca elétrica, uma superfície quente, eletricidade estática — e o resultado é catastrófico.
A classificação de áreas é a ferramenta de engenharia que mapeia onde esse risco existe e com que frequência. E é o pré-requisito de tudo o mais: sem saber onde estão as zonas, qualquer decisão sobre equipamentos elétricos, permissões de trabalho ou procedimentos de emergência fica no improviso.
| Zona | Agente | Frequência da atmosfera explosiva | Exemplo típico |
|---|---|---|---|
| Zona 0 | Gases/vapores | Contínua ou por longos períodos (> 1.000h/ano) | Interior de tanque de solvente em operação |
| Zona 1 | Gases/vapores | Provável em operação normal (10–1.000h/ano) | Entorno de válvulas e selos de bombas |
| Zona 2 | Gases/vapores | Improvável; se ocorrer, por curto período (< 10h/ano) | Perímetro afastado da área de processo |
| Zona 20 | Poeiras combustíveis | Contínua ou frequente (> 1.000h/ano) | Interior de silo de grãos, moinho |
| Zona 21 | Poeiras combustíveis | Provável em operação normal (10–1.000h/ano) | Área de carga/descarga de pó |
| Zona 22 | Poeiras combustíveis | Improvável; se ocorrer, por curto período (< 10h/ano) | Perímetro de área com poeira depositada |
O que é uma área classificada e quem regula no Brasil
É a região onde há probabilidade de presença de atmosfera explosiva, exigindo precauções específicas na construção, instalação e uso de equipamentos — especialmente elétricos. No Brasil, o tema é regido pela série de normas ABNT NBR IEC 60079, com exigências reforçadas pela NR 10 (segurança em instalações elétricas) e NR 20 (inflamáveis e combustíveis). A classificação é responsabilidade do proprietário da instalação, elaborada por profissional habilitado com ART.
O critério fundamental: frequência e duração
O conceito central das zonas é simples e brilhante: quanto mais frequente e duradoura a presença da atmosfera explosiva, mais severa a zona (menor número) e mais robusto o equipamento exigido. A Zona 0 (ou 20) é a mais severa — atmosfera quase permanente. A Zona 2 (ou 22) é a menos severa — atmosfera rara e transitória.
O que a classificação exige na prática
- ▸Desenho de classificação de áreas atualizado (planta baixa com as zonas demarcadas), assinado por profissional habilitado com ART;
- ▸Equipamentos elétricos certificados Ex compatíveis com a zona, o grupo de gás e a classe de temperatura;
- ▸Certificação Inmetro para equipamentos Ex (obrigatória no Brasil);
- ▸Controle de fontes de ignição: permissão de trabalho para serviço a quente, aterramento, controle de eletricidade estática;
- ▸Prontuário das instalações elétricas (NR 10) contemplando as áreas classificadas;
- ▸Plano de inspeção periódica dos equipamentos Ex conforme NBR IEC 60079-17.
Poeiras combustíveis: o perigo que a maioria subestima
Poeira explode — e explosões secundárias de poeira depositada costumam ser muito mais destrutivas que a primária. Açúcar, amido, grãos, madeira, alumínio e até alguns pós farmacêuticos formam atmosferas explosivas quando em suspensão na concentração certa. Silo de grãos com pouca ventilação e fontes de ignição (rolamentos não-Ex, aterramento deficiente) é combinação fatal.
O erro mais comum nas plantas brasileiras
Comprar equipamento "à prova de explosão" sem verificar a compatibilidade com a zona, o grupo de gás e a classe de temperatura do local. Equipamento Ex errado é tão perigoso quanto equipamento comum — com a agravante da falsa sensação de segurança. Para entender a seleção correta de equipamentos Ex, avance para o nosso artigo sobre equipamentos Ex e segurança intrínseca.
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▸O que é atmosfera explosiva (ATEX)?
É a mistura de ar com substâncias inflamáveis (gases, vapores, névoas ou poeiras) em concentração tal que uma fonte de ignição pode provocar explosão. ATEX é a sigla europeia (ATmosphères EXplosibles) usada internacionalmente para o tema.
▸Quem deve elaborar o estudo de classificação de áreas?
Profissional legalmente habilitado (engenheiro eletricista, químico ou de segurança) com conhecimento nas normas ABNT NBR IEC 60079, com emissão de ART (Anotação de Responsabilidade Técnica). Não é trabalho de estagiário ou de fornecedor de equipamento.
▸Com que frequência o desenho de classificação deve ser revisado?
Sempre que houver mudança na planta que altere a presença ou distribuição de inflamáveis (novo equipamento, mudança de processo, novo produto, modificação no layout). E revisão periódica mínima a cada 3 anos como boa prática, mesmo sem mudanças.
▸O que são grupos de gás e como afetam a seleção do equipamento Ex?
Os grupos de gás classificam os inflamáveis pela energia mínima de ignição: Grupo I (metano em minas), Grupo II (gases industriais, subdividido em IIA, IIB, IIC — do menos ao mais perigoso). O equipamento Ex deve ser certificado para o grupo do gás presente. IIC (hidrogênio, acetileno) é o mais exigente.
▸O que é classe de temperatura e por que importa?
A classe de temperatura (T1 a T6) define a temperatura máxima de superfície do equipamento. Deve ser menor que a temperatura de autoignição do gás presente. Errar a classe de temperatura é criar uma fonte de ignição em potencial.
▸Equipamento certificado CE europeu pode ser usado no Brasil sem certificação Inmetro?
Não. O Brasil exige certificação Inmetro para equipamentos Ex, mesmo que o produto tenha certificação europeia (ATEX) ou americana (FM, UL). A exceção são casos específicos de portarias de importação de produto sem equivalente nacional — raro e temporário.
▸Ferramentas manuais e EPI também precisam ser Ex em área classificada?
Ferramentas que possam gerar faísca (metálicas comuns) devem ser substituídas por ferramentas antifaísca (bronze-berílio ou similares) em Zona 0 e 1. Equipamentos elétricos portáteis (lanternas, detectores, rádios) precisam de certificação Ex. EPI não-elétrico geralmente não exige Ex, mas deve evitar eletrostática.
▸O que é permissão de trabalho a quente e quando é obrigatória em área classificada?
Permissão de trabalho a quente (ou PT de serviço a quente) é o documento que autoriza atividades geradoras de faísca ou calor (solda, esmerilhamento, corte) em áreas com risco de explosão. É obrigatória em qualquer área classificada ou em áreas adjacentes com risco de migração de inflamáveis.
▸O prontuário de instalações elétricas NR 10 deve cobrir áreas classificadas?
Sim. O prontuário NR 10 deve documentar todas as instalações elétricas, incluindo os equipamentos instalados em áreas classificadas com sua certificação Ex, a zona onde estão instalados e o grupo de gás e classe de temperatura correspondentes.
▸O que é a NBR IEC 60079-17 e para que serve?
É a norma que define os requisitos para inspeção e manutenção de instalações elétricas em áreas explosivas. Define os tipos de inspeção (visual, próxima, detalhada), a frequência recomendada e os itens a verificar em cada tipo de equipamento Ex.
▸Área classificada de Zona 2 tem os mesmos requisitos de Zona 0?
Não. Zona 2 permite equipamentos Ex com tipos de proteção menos restritivos (como Ex n — sem faísca em operação normal). Zona 0 exige tipos mais seguros como Ex ia (segurança intrínseca nível a — a única aceita em Zona 0 para equipamentos elétricos). A escolha correta depende do estudo de classificação.
▸Sinalização de área classificada é obrigatória?
Sim. A NR 20 e a NR 10 exigem sinalização clara das áreas com risco de inflamabilidade e explosão. Os equipamentos Ex também devem ser identificados com plaqueta de inspeção periódica. A NBR IEC 60079-17 define os requisitos de registro e identificação.
▸Como tratar equipamentos elétricos antigos (antes das normas Ex) que ainda estão instalados?
Equipamentos não-Ex instalados antes das normas devem ser identificados no plano de adequação da planta. Enquanto não substituídos, devem ser tratados como fontes potenciais de ignição — com controle administrativo rigoroso (permissão de trabalho, monitoramento contínuo da atmosfera). A substituição deve ser priorizada pelo risco.
▸Qual a diferença entre certificação Ex e certificação IP (Ingress Protection)?
São certificações distintas para propriedades diferentes. IP (ex.: IP65) certifica a proteção contra entrada de poeira e água. Ex certifica que o equipamento não é fonte de ignição em atmosfera explosiva. Um equipamento pode ter ambas — ou só uma. Para área classificada, o que importa é a Ex.
▸Planta de classificação de áreas antiga (dos anos 90) ainda vale?
Planta antiga pode não refletir a instalação atual (expansões, mudanças de produto, novos equipamentos). Deve ser revisada e atualizada com ART de profissional habilitado. Usar planta desatualizada como referência para seleção de equipamentos é assumir risco técnico e legal.
▸Como a NR 20 trata líquidos inflamáveis diferente de gases?
A NR 20 classifica os líquidos inflamáveis pela temperatura de fulgor (flash point) e pela pressão de vapor. Inflamáveis com ponto de fulgor abaixo de 60°C (Classe I e II) têm maior facilidade de formar atmosfera explosiva à temperatura ambiente. Isso influencia diretamente a extensão das zonas no estudo.
▸Quem fiscaliza a conformidade de áreas classificadas no Brasil?
O MTE (NR 10 e NR 20), o Inmetro (certificação de equipamentos) e o CBPMESP/Corpo de Bombeiros (para aspectos de combate a incêndio e explosão). Em caso de acidente, MPT e Poder Judiciário.
▸É obrigatório ter plano de inspeção periódica para equipamentos Ex?
Sim. A NBR IEC 60079-17 e a NR 10 exigem inspeção periódica dos equipamentos Ex. A frequência é definida pelo responsável técnico com base no tipo de equipamento, ambiente e histórico de manutenção — mas não pode ser negligenciada.
▸Existe classificação de área para hidrogênio? Por que é mais exigente?
Sim. O hidrogênio pertence ao Grupo IIC (o mais perigoso), com energia mínima de ignição muito baixa (0,017 mJ — quase 10 vezes menor que o metano). Isso exige equipamentos Ex especificamente certificados para IIC e controles muito mais rigorosos de aterramento e eletrostática.
▸Onde encontro suporte para elaborar o estudo de classificação de áreas da minha planta?
O Portal SESMT oferece artigos técnicos sobre o tema. Para elaboração do estudo formal com ART, é necessário contratar engenheiro habilitado. Nossos serviços de consultoria em SST incluem apoio em áreas classificadas — veja em [/servicos](/servicos).
Continue a pesquisa: Equipamentos Ex e Segurança Intrínseca: Seleção, Inspeção e os Erros que a Fiscalização Encontra, NR 35 Trabalho em Altura: Treinamento, APR e Tudo que a Fiscalização Vai Pedir e Espaço Confinado do Zero: O Guia Básico da NR 33 para Quem Está Começando. Para conferir o equipamento correto, use o buscador de CA; para aprofundar a preparação profissional, veja também as apostilas de SST.

